03/04/2014

Chico Buarque: ludolingüista [2]



Outro exemplo do engado das palabras esdrúxulas. Desta volta, «Construção» (1971) de Chico Buarque, considerada unha das mellores cancións brasileiras de todos os tempos. Unha letra memorable de 41 versos dodecasílabos rematados sempre nunha voz esdrúxula. Un mosaico de enunciados que se repiten practicamente iguais en sucesivas series coa única diferenza de variar de posición as palabras esdrúxulas.
Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego
Amou daquela vez como se fosse o último
Beijou sua mulher como se fosse a única
E cada filho seu como se fosse o pródigo
E atravessou a rua com seu passo bêbado
Subiu a construção como se fosse sólido
Ergueu no patamar quatro paredes mágicas
Tijolo com tijolo num desenho lógico
Seus olhos embotados de cimento e tráfego
Sentou pra descansar como se fosse um príncipe
Comeu feijão com arroz como se fosse o máximo
Bebeu e soluçou como se fosse máquina
Dançou e gargalhou como se fosse o próximo
E tropeçou no céu como se ouvisse música
E flutuou no ar como se fosse sábado
E se acabou no chão feito um pacote tímido
Agonizou no meio do passeio náufrago
Morreu na contramão atrapalhando o público
Amou daquela vez como se fosse máquina
Beijou sua mulher como se fosse lógico
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
Sentou pra descansar como se fosse um pássaro
E flutuou no ar como se fosse um príncipe
E se acabou no chão feito um pacote bêbado
Morreu na contra-mão atrapalhando o sábado
A canción relata o derradeiro día na vida dun obreiro que falece ao caer dunha estada nun edificio en construción e supón unha denuncia da alienación do traballador na nosa sociedade contemporánea, que o reduce a un elemento mecánico.

Unha temática que me trae á cabeza o poema «Monólogo do vello traballador» (1962) de Celso Emilio Ferreiro. Aquí deixo un fermoso videopoema desta peza creado por Andrea Nunes, Lorena Souto e Mario Regueira.



Con todo, Chico Buarque declarou nunha entrevista, en 1973, que «Construção» non era para el unha simple canción de denuncia ou protesta: «Em "Construção", a emoção estava no jogo de palavras. Agora, se você coloca um ser humano dentro de um jogo de palavras, como se fosse... um tijolo, acaba mexendo com a emoção das pessoas».

De novo, para sorte de todos nós, o xenial Chico Buarque ludolingüista.

Ningún comentario:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...